sábado, 26 de junho de 2010

As grandes linhagens


Carlos Araújo, Dando graças em azul (detalhe).

        
            Sempre me incomodou a ideia de que só haja uma maneira de fazer alguma coisa bem feita. O ecletismo me parece ser a marca mais evidente do universo. Tão evidente que me poupo de explicá-lo.
          Esse, por certo desnecessário, preâmbulo, todavia, serve-me apenas para dizer que, em termos de futebol, sempre me irritou a opinião de que só há uma forma bonita de se jogar, de que determinado jogador encarna a essência do jogo, ou qualquer outro clichê desse gênero.
          Penso, ou melhor, sei que há diversas maneiras eficientes e igualmente admiráveis de jogar futebol. Seja pressionando a saída de bola ou os armadores do adversário (como a Holanda de Rinus Michel). Seja trocando infinitos passes e envolvendo, ou envenenando, aos poucos o adversário (como o Flamengo dos anos 80). Seja oferecendo a posse de bola ao outro time e encolhendo-se em seu campo para partir num fulminante conta-ataque (como, por vezes, a seleção de 1970 e, quase sempre, o Botafogo de 1968).
          Meu improvável leitor concluirá, desassombrado, que também não comungo do conceito de futebol arte ou o do autêntico futebol brasileiro.
          E concluirá certo, pois, se nem sei até hoje se o futebol pode ser comparado à arte, menos ainda sei o que se poderia tomar por autêntico, numa escola tão rica como a nossa, que triunfou em cinco copas jogando, numa análise rigorosa, de, pelo menos, quatro maneiras diferentes.
          Sim, porque, se podemos aproximar o 4-2-4 de 58 ao de 62 (ou, quem sabe, um 4-2-3-1 no Chile, com Garrincha jogando onde bem queria), devemos reconhecer, com alguma facilidade, o 4-5-1 de 70 (em que só Jairzinho atuava como atacante o tempo todo), o rígido 4-4-2 de Parreira em 94, e o 3-5-2 (ou seria 3-4-3?) de Felipão em 2002.
          O mesmo que digo sobre os times digo sobre os jogadores. Vejo, na história do futebol, pelo menos três grandes linhagens de craques, e jamais soube (nem me importou saber) qual mais me agrada. Muito menos qual delas seria superior às outras duas.
          Se falo, porém, em três linhagens de craques, é preciso ir direto a elas.
          À primeira chamo a linhagem dos grandes estilistas. Citar é esquecer, mas cito alguns de seus representantes: Zidane, Falcão, Nilton Santos e Didi. Os estilistas são aqueles capazes de incrível economia de meios e de não menos incrível variedade de efeitos. Aqueles, minimalistas, capazes de tudo resolver com um só toque na bola, capazes da elegância discreta de uma matada, de um corta-luz macio, quase imperceptível. Aqueles para quem o drible é contingente e a precisão é um lema. Passearam, e ainda passeiam, nos gramados com certo desdém, com certo ar hierático e marcial – e esse ar, que em outros pareceria empáfia, lhes é tão natural quanto o uniforme que envergam.
          A segunda linhagem é a dos técnicos. Artífices da eficácia, uma matada não sossega a bola, mas a usa como alavanca de um arranque. Senhores de todos os fundamentos, arrancam conduzindo a bola sempre do lado oposto ao do marcador – driblando quando necessário e para inverter posições desfavoráveis. Se na cara do gol, escolhem, num átimo, o chute ideal: uma bomba, um toque de chapa e meia força junto ao pé do goleiro, um tapa por cima, tão diáfano e letal. De resto, são sempre letais. A linha reta é seu caminho. Desviam-se dela, por certo, mas a retomam logo que possível. A habilidade lhes é contingente, embora ela seja protagonista de alguns de seus momentos mais emblemáticos. Falo de Pelé, de Cruyff e, no presente, de Lionel Messi.
          Chegamos à terceira linhagem, a dos habilidosos. Eles são, talvez, o futebol em seu estado de êxtase, o que não quer dizer que o êxtase seja, sempre, seu melhor estado. São os capazes do improvável, quando não (com o perdão do oxímoro) do impossível. Fazem com a bola o que querem. Onde a bola não passa, é justamente ali que a enfiam, e ela passa. Driblam dois ou três marcadores num espaço em que mal caberia um. Aliás, desconhecem os marcadores, desdenham-nos. E esse desdém, que em outros pareceria desrespeito, faz sorrir o público, e faz de seus marcadores coadjuvantes necessários, porém impotentes, de cenas arrebatadoras e, muitas vezes, surreais. Falo, por exemplo (mas não apenas), de Diego Maradona e de Mané Garrincha.
          Claro fique que essas linhagens frequentemente se confundem, podendo (craques que são todos eles) um estilista jogar como um técnico, um técnico como um habilidoso ou qualquer combinação que se queira. Isso porque todos têm o comum sortilégio da visão de jogo, da antevisão do lance e da leitura das necessidades coletivas.
          Claro fique, também, que linhagens são categorias genéticas e se sustentam na legenda de alguns patriarcas. Por isso citei apenas aqueles que, porventura, e de memória, a essa categoria julgo pertencerem. E minhas poucas citações nem de longe têm a pretensão de limitar ou encerrar uma lista de craques que, queira Deus, continue inúmera e interminável.

A fonte

                        sobre “O Balanço”, de Fragonard



Mera e moral, a um canto da tela,
a fonte em que o Amor ou outro deus,
em gesto, se de cúmplice censura,
nada acrescenta à cena ou tira dela.

Em nada existe, em nada além da idéia
tão decadente de que o olho espera
um recesso de água e de penumbra
se, quando nume, um corpo de mulher flutua;

se o desejo (ou o clichê dele) nos inunda
à visão de um balanço e uma mulher
cujo vestido voa, e o gesto pondera;

se uma mulher tão ruiva e de coxas tão brancas,
muda e veloz, chuta o sapato longe,
faz que recusa, e já nos abre as pernas.
                                                     Cláudio Neves

sexta-feira, 25 de junho de 2010

As mensagens de Maradona

         Max Ernst, Duas crianças assustadas por um rouxinol, 1924.



 No jogo contra a Inglaterra, em 1986, Maradona fez bem mais que um gol com a mão. Isso todos sabemos. Fez, minutos depois, aquele que seria considerado o “gol do século” em muitas dessas intermináveis, inevitáveis, porém inócuas eleições. Como avaliar se uma arrancada é mais ou menos espetacular que um chapéu frontal e um arremate de primeira, como no gol de Pelé na final de 1958, ou ainda o gol de Zidane, emendando de primeira uma bola impossível na final da Champions League de 2002? O fato é que Maradona conduziu a bola com a elegância de sempre, por entre adversários perplexos, impotentes, até deixá-la nas redes.
          Diego, contudo, com seu segundo gol, fez mais que selar a sorte do jogo, ou, na visão de alguns, que insistem (quanta bobagem!) em misturar as instâncias do futebol e da política, “vingar” a derrota argentina nas Malvinas.
         O que ele fez foi, sobretudo, emitir uma mensagem clara aos ingleses e a todos os futuros rivais: não importa o que vocês façam, não conseguirão me deter. E, a partir daquele gol, bastava que dominasse a bola depois do meio-campo para que os adversários (e seus sistemas de marcação) se desarvorassem.
          Mas voltemos a 2010. Maradona, agora técnico, tem nas mãos o melhor elenco do Mundial e o (disparado) melhor jogador do planeta. E sabe disso. Disseram já, com alguma razão e o imenso clichê desse tipo de ironia, que o técnico Maradona é um jogador incomparável.
          De fato, ser como técnico o que foi como atleta seria impensável. Ele sabe, contudo, que certas mensagens não envelhecem. E, venham do gramado ou do banco de reservas, podem ter o mesmo efeito. Contra a Grécia, ainda não classificado matematicamente, pôs seis reservas, seu time jogou bem e venceu quando quis. Ainda tirou Diego Milito, um dos grandes artilheiros da Europa hoje, para pôr Palermo. O bonachão Palermo, simpático, goleador, mas veterano e longe de ser (e de ter sido) um craque. Colocou-o como homenagem? Talvez. Ou talvez como remate da grande mensagem para os rivais em que se convertera a partida.
          “Não importa quem eu escale, não importa o que eu faça de errado ou de certo. Eu, como técnico, não importo. A Argentina Messi, tem um elenco inigualável e não será batida.”
          A Argentina será campeã? Isso ninguém pode saber. A partir das oitavas, pega a chave mais difícil, com Alemanha, Inglaterra, Espanha etc. O que se sabe é que a convicção de Maradona vem-se transformando, desde o início da Copa, na convicção da imprensa, dos torcedores e, fundamentalmente, de seu público-alvo – os futuros rivais. E as defesas serão montadas baseadas nessa certeza, e talvez se desarvorem, uma a uma, também em função dela.

Maradona e Pelé x Michelangelo & Cia.



     No programa Seleção Sportv, os jornalistas Renato Maurício Prado e André Rizek iniciaram (e pena que não a continuaram) uma polêmica sem dúvida válida.
     Ao referir-se a Diego Maradona, Rizek o classificou como “um dos grandes gênios da humanidade”, o que provocou contrária e imediata reação de Renato. Não quero aqui discutir o jogador Maradona, que sobre sua qualidade em campo não há discussão, pelo menos discussão sensata.
     O que me chamou a atenção foi que a cisão entre os jornalistas se deu noutro plano – o futebol, e o esporte, por supuesto, produz “gênios da humanidade” ou isso é incumbência, sobretudo, das artes, da política e das ciências?
     Primeiro seria necessário relembrar quando, e como, as artes que hoje concebemos como “arte” atingiram esse status. Na Grécia Clássica, um pintor era apenas um artesão, um trabalhador braçal, e por “arte” ainda se entendia, por exemplo, a retórica. Já no Renascimento, Michelangelo, que ninguém duvida ser um “gênio da humanidade”, considerava a escultura seu ofício. A pintura, para o autor dos afrescos do Juízo Final e do teto da Capela Sistina, era uma atividade menor. Não obstante, seus afrescos , hoje, serem exemplos daquilo que de mais alto a humanidade produziu em termos artísticos.
   Seria necessário lembrar isso e muito mais. Mas seria, também, uma discussão geneticamente erudita e entediante. Voltemos ao esporte e ao termo “gênio”.
      Diz-se “futebol arte” como se diz “futebol bem jogado” ou um “mais refinado espetáculo de massa”. Isso, claro, pouco tem a ver com os muitos conceitos de arte, embora se pudesse aqui iniciar uma outra longa e inútil discussão, se aproximássemos o futebol, por exemplo, da dança, também ela expressão artístico-cinestésica. Ou Nijinsk não era artista, no sentido mais comum, e talvez mais justo, da palavra? Porque, nem sempre, claro, o senso comum nega conceitos acadêmicos. Às vezes, expressa-os mais apressada e puerilmente, mas não é fato que erre sempre.
     Atenhamo-nos, contudo, à questão dos “gênios” – de onde vêm, o que têm de fazer para serem assim nomeados.
    Poder-se dizer, sem maior receio, “futebol genial”, quer se trate de um atleta, como Maradona ou Pelé, quer se trate de um time, como a Holanda de 74 e sua tática inovadora. Sim, pode-se empregar, sem nenhum engano, o adjetivo “genial” em relação ao esporte. Ou não foram geniais, em suas modalidades, Pelé, Jordan, Ali, e tantos outros?
     (Minha lista de exemplos, porém, é desigual. Nela, Mohamed Ali conta, claro, no mundo todo, com uma simpatia inequívoca e loquaz, porque seus feitos esportivos colam-se a feitos civis, como quando se recusou a servir ao exército dos EUA e quase teve sua carreira destruída; ou quando incorporou um semideus africano e correu pelas ruas de Kinshasa, no Zaire, em 1974, cercado de crianças em êxtase; quando levou àquele continente algo bem maior que seus jabs elegantes e seus pés dançarinos. Ali foi, ainda, imortalizado na literatura por autores do calibre de um Normam Mailler, em seu livro The Fight (A Luta), romance-reportagem que dá contornos épicos ao embate Ali vs Foreman. Entre os títulos dos capítulos, lembro-me especialmente de um, A Canção do Carrasco, que trata dos rounds em que Ali começa já domina o duelo, depois de uma sequência de intermináveis assaltos preso às cordas e recebendo em seu corpo toda a fúria do adversário.)
     Parece bastante razoável que se aplique o termo “gênio da humanidade” a quem quer que o seja (gênio), não importando a natureza de sua ocupação. Seja ele um Oscar Niemeyer ou um Frank Loyd Wright, na arquitetura; seja ele Hitchcock ou Spielberg, no cinema; Moebius ou Frank Miller, nos quadrinhos; Rommel ou Panthon, na estratégia de combate; Christiaan Barnard, na medicina; Mandela ou Luther King, na defesa de direitos civis. E assim por diante. O esporte incluído. E, claro, incluído nele o futebol.
     Que Pelé e Maradona falem as bobagens de sempre, que se digladiem em sua arena pública; que seus egos imensos colidam ruidosamente; que se espetem em público para desagrado de muitos e diversão de muitos outros.
       Se o conceito de “gênio da humanidade” é o de alguém que, em sua atividade, qualquer de seja, capaz de uma técnica inigualável, de inovação, de surpresa, capaz de elevar-se muito acima de seus pares e de seu tempo, eles o são, sem dúvida.
      Não são artistas, claro, porque futebol não é nem nunca foi arte. Embora essa seja uma outra, e ainda interminável, discussão...