
No programa Seleção Sportv, os jornalistas Renato Maurício Prado e André Rizek iniciaram (e pena que não a continuaram) uma polêmica sem dúvida válida.
Ao referir-se a Diego Maradona, Rizek o classificou como “um dos grandes gênios da humanidade”, o que provocou contrária e imediata reação de Renato. Não quero aqui discutir o jogador Maradona, que sobre sua qualidade em campo não há discussão, pelo menos discussão sensata.
O que me chamou a atenção foi que a cisão entre os jornalistas se deu noutro plano – o futebol, e o esporte, por supuesto, produz “gênios da humanidade” ou isso é incumbência, sobretudo, das artes, da política e das ciências?
Primeiro seria necessário relembrar quando, e como, as artes que hoje concebemos como “arte” atingiram esse status. Na Grécia Clássica, um pintor era apenas um artesão, um trabalhador braçal, e por “arte” ainda se entendia, por exemplo, a retórica. Já no Renascimento, Michelangelo, que ninguém duvida ser um “gênio da humanidade”, considerava a escultura seu ofício. A pintura, para o autor dos afrescos do Juízo Final e do teto da Capela Sistina, era uma atividade menor. Não obstante, seus afrescos , hoje, serem exemplos daquilo que de mais alto a humanidade produziu em termos artísticos.
Seria necessário lembrar isso e muito mais. Mas seria, também, uma discussão geneticamente erudita e entediante. Voltemos ao esporte e ao termo “gênio”.
Diz-se “futebol arte” como se diz “futebol bem jogado” ou um “mais refinado espetáculo de massa”. Isso, claro, pouco tem a ver com os muitos conceitos de arte, embora se pudesse aqui iniciar uma outra longa e inútil discussão, se aproximássemos o futebol, por exemplo, da dança, também ela expressão artístico-cinestésica. Ou Nijinsk não era artista, no sentido mais comum, e talvez mais justo, da palavra? Porque, nem sempre, claro, o senso comum nega conceitos acadêmicos. Às vezes, expressa-os mais apressada e puerilmente, mas não é fato que erre sempre.
Atenhamo-nos, contudo, à questão dos “gênios” – de onde vêm, o que têm de fazer para serem assim nomeados.
Poder-se dizer, sem maior receio, “futebol genial”, quer se trate de um atleta, como Maradona ou Pelé, quer se trate de um time, como a Holanda de 74 e sua tática inovadora. Sim, pode-se empregar, sem nenhum engano, o adjetivo “genial” em relação ao esporte. Ou não foram geniais, em suas modalidades, Pelé, Jordan, Ali, e tantos outros?
(Minha lista de exemplos, porém, é desigual. Nela, Mohamed Ali conta, claro, no mundo todo, com uma simpatia inequívoca e loquaz, porque seus feitos esportivos colam-se a feitos civis, como quando se recusou a servir ao exército dos EUA e quase teve sua carreira destruída; ou quando incorporou um semideus africano e correu pelas ruas de Kinshasa, no Zaire, em 1974, cercado de crianças em êxtase; quando levou àquele continente algo bem maior que seus jabs elegantes e seus pés dançarinos. Ali foi, ainda, imortalizado na literatura por autores do calibre de um Normam Mailler, em seu livro The Fight (A Luta), romance-reportagem que dá contornos épicos ao embate Ali vs Foreman. Entre os títulos dos capítulos, lembro-me especialmente de um, A Canção do Carrasco, que trata dos rounds em que Ali começa já domina o duelo, depois de uma sequência de intermináveis assaltos preso às cordas e recebendo em seu corpo toda a fúria do adversário.)
Parece bastante razoável que se aplique o termo “gênio da humanidade” a quem quer que o seja (gênio), não importando a natureza de sua ocupação. Seja ele um Oscar Niemeyer ou um Frank Loyd Wright, na arquitetura; seja ele Hitchcock ou Spielberg, no cinema; Moebius ou Frank Miller, nos quadrinhos; Rommel ou Panthon, na estratégia de combate; Christiaan Barnard, na medicina; Mandela ou Luther King, na defesa de direitos civis. E assim por diante. O esporte incluído. E, claro, incluído nele o futebol.
Que Pelé e Maradona falem as bobagens de sempre, que se digladiem em sua arena pública; que seus egos imensos colidam ruidosamente; que se espetem em público para desagrado de muitos e diversão de muitos outros.
Se o conceito de “gênio da humanidade” é o de alguém que, em sua atividade, qualquer de seja, capaz de uma técnica inigualável, de inovação, de surpresa, capaz de elevar-se muito acima de seus pares e de seu tempo, eles o são, sem dúvida.
Não são artistas, claro, porque futebol não é nem nunca foi arte. Embora essa seja uma outra, e ainda interminável, discussão...
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