Carlos Araújo, Dando graças em azul (detalhe).
Sempre me incomodou a ideia de que só haja uma maneira de fazer alguma coisa bem feita. O ecletismo me parece ser a marca mais evidente do universo. Tão evidente que me poupo de explicá-lo.
Esse, por certo desnecessário, preâmbulo, todavia, serve-me apenas para dizer que, em termos de futebol, sempre me irritou a opinião de que só há uma forma bonita de se jogar, de que determinado jogador encarna a essência do jogo, ou qualquer outro clichê desse gênero.
Penso, ou melhor, sei que há diversas maneiras eficientes e igualmente admiráveis de jogar futebol. Seja pressionando a saída de bola ou os armadores do adversário (como a Holanda de Rinus Michel). Seja trocando infinitos passes e envolvendo, ou envenenando, aos poucos o adversário (como o Flamengo dos anos 80). Seja oferecendo a posse de bola ao outro time e encolhendo-se em seu campo para partir num fulminante conta-ataque (como, por vezes, a seleção de 1970 e, quase sempre, o Botafogo de 1968).
Meu improvável leitor concluirá, desassombrado, que também não comungo do conceito de futebol arte ou o do autêntico futebol brasileiro.
E concluirá certo, pois, se nem sei até hoje se o futebol pode ser comparado à arte, menos ainda sei o que se poderia tomar por autêntico, numa escola tão rica como a nossa, que triunfou em cinco copas jogando, numa análise rigorosa, de, pelo menos, quatro maneiras diferentes.
Sim, porque, se podemos aproximar o 4-2-4 de 58 ao de 62 (ou, quem sabe, um 4-2-3-1 no Chile, com Garrincha jogando onde bem queria), devemos reconhecer, com alguma facilidade, o 4-5-1 de 70 (em que só Jairzinho atuava como atacante o tempo todo), o rígido 4-4-2 de Parreira em 94, e o 3-5-2 (ou seria 3-4-3?) de Felipão em 2002.
O mesmo que digo sobre os times digo sobre os jogadores. Vejo, na história do futebol, pelo menos três grandes linhagens de craques, e jamais soube (nem me importou saber) qual mais me agrada. Muito menos qual delas seria superior às outras duas.
Se falo, porém, em três linhagens de craques, é preciso ir direto a elas.
À primeira chamo a linhagem dos grandes estilistas. Citar é esquecer, mas cito alguns de seus representantes: Zidane, Falcão, Nilton Santos e Didi. Os estilistas são aqueles capazes de incrível economia de meios e de não menos incrível variedade de efeitos. Aqueles, minimalistas, capazes de tudo resolver com um só toque na bola, capazes da elegância discreta de uma matada, de um corta-luz macio, quase imperceptível. Aqueles para quem o drible é contingente e a precisão é um lema. Passearam, e ainda passeiam, nos gramados com certo desdém, com certo ar hierático e marcial – e esse ar, que em outros pareceria empáfia, lhes é tão natural quanto o uniforme que envergam.
A segunda linhagem é a dos técnicos. Artífices da eficácia, uma matada não sossega a bola, mas a usa como alavanca de um arranque. Senhores de todos os fundamentos, arrancam conduzindo a bola sempre do lado oposto ao do marcador – driblando quando necessário e para inverter posições desfavoráveis. Se na cara do gol, escolhem, num átimo, o chute ideal: uma bomba, um toque de chapa e meia força junto ao pé do goleiro, um tapa por cima, tão diáfano e letal. De resto, são sempre letais. A linha reta é seu caminho. Desviam-se dela, por certo, mas a retomam logo que possível. A habilidade lhes é contingente, embora ela seja protagonista de alguns de seus momentos mais emblemáticos. Falo de Pelé, de Cruyff e, no presente, de Lionel Messi.
Chegamos à terceira linhagem, a dos habilidosos. Eles são, talvez, o futebol em seu estado de êxtase, o que não quer dizer que o êxtase seja, sempre, seu melhor estado. São os capazes do improvável, quando não (com o perdão do oxímoro) do impossível. Fazem com a bola o que querem. Onde a bola não passa, é justamente ali que a enfiam, e ela passa. Driblam dois ou três marcadores num espaço em que mal caberia um. Aliás, desconhecem os marcadores, desdenham-nos. E esse desdém, que em outros pareceria desrespeito, faz sorrir o público, e faz de seus marcadores coadjuvantes necessários, porém impotentes, de cenas arrebatadoras e, muitas vezes, surreais. Falo, por exemplo (mas não apenas), de Diego Maradona e de Mané Garrincha.
Claro fique que essas linhagens frequentemente se confundem, podendo (craques que são todos eles) um estilista jogar como um técnico, um técnico como um habilidoso ou qualquer combinação que se queira. Isso porque todos têm o comum sortilégio da visão de jogo, da antevisão do lance e da leitura das necessidades coletivas.
Claro fique, também, que linhagens são categorias genéticas e se sustentam na legenda de alguns patriarcas. Por isso citei apenas aqueles que, porventura, e de memória, a essa categoria julgo pertencerem. E minhas poucas citações nem de longe têm a pretensão de limitar ou encerrar uma lista de craques que, queira Deus, continue inúmera e interminável.


